O legado de uma cultura

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O café já era utilizado pelos etíopes, quando foi transportado para o Oriente Médio, embora a proximidade geográfica dos dois países, aceita-se a hipótese de que esse transplante se efetuou com as invasões etíopes no Iêmen nos séculos XIII e XIV.


O processo de difusão do café na Arábia, deve-se principalmente ao Xeique Dhabhani e a Maomé. O primeiro, através de suas viagens pela costa africana por volta de 1500, onde identificou as diversas utilizações que os nativos davam à planta, principalmente como medicamento. Já no caso do pai do islamismo, além de ser considerado um revitalizador, o café, dada a sua origem mirífica, passou a ser usado como um amuleto, a ponto de que nenhum viajante ficasse sem algumas folhas da planta, especialmente no período do Ramadã e das peregrinações a Meca.


Em 1511, depois de uma assembléia com os sábios da cidade, o Xeique Bey, prefeito de Meca, realizou a primeira proibição do consumo de café aos seguidores do Corão. Essa proibição durou cerca de 150 anos, sendo que nesse período, o café sofreu fortes perseguições. A mais violenta foi a do Sultão Murad III (1574-1595), que a considerou "bebida do diabo".


No século XVI, a bebida passa a ser conhecida e comercializada em Constantinopla, onde é aberto em 1554 o primeiro café público. Ainda no século XVI, diversos cafés públicos são abertos no Cairo, tornando-se ponto de reunião de sábios e intelectuais.


Seguindo o ritmo empregado pelo mercantilismo, o café foi introduzido na Europa, via Constantinopla, onde na cidade de Veneza, em 1624 têm-se os primeiros registros de consumo. O primeiro café público europeu foi aberto em 1645, onde o café passou a ser pivô de discussões acirradas, sendo que os principais opositores do seu consumo requereram inclusive a intervenção eclesiástica. O Papa Clemente III solicitou experimentar a bebida antes de dar seu veredicto. Depois de prová-la e ser seduzido por ela, exclamou: "Por Deus, esta bebida de Satanás é tão deliciosa que seria uma lástima deixá-la para o uso exclusivo dos hereges. Vamos burlar o diabo, batizando-a."


Pelo Porto de Marselha, em 1659, o café encontrou seu maior aliado e divulgador. Os franceses foram tão receptivos à bebida, que rapidamente gerou a multiplicação de cafés públicos. Na França, o primeiro foi aberto em 1672, por um armênio de nome Pascal. O mais famoso deles chamava-se Café Procope, inaugurado em Paris em 1689. Graças às suas virtudes, o café passou a ser cultuado

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1 CAMARGO, Rogério de, TELLES JR. , Adalberto de Queiroz. O Café no Brasil. Vol I. Rio de Janeiro: Guarany, 1953. P. 6.
principalmente pelos poetas e intelectuais da época. Acredita-se que na metade do século XIX, Paris já possuía cerca de 3.800 cafés.


Em 1651, o café chega à Inglaterra, com a abertura do primeiro café público. Tornando-se locais de acirradas discussões políticas e em apenas ½ (meio) século, Londres já contava com mais de 300 (trezentos) cafés públicos. Esse fervilhão de idéias que se davam nos cafés, serviu de mote para que os produtores de cerveja e aguardente obtivessem do Rei Carlos II um decreto proibindo o consumo do café na Inglaterra.


O primeiro café público vienense foi aberto em 1683, pelo polonês Kolschitzki, que obteve um lote de café de prisioneiros de guerra turcos. Dessa maneira, o café conquistou o paladar do velho mundo.


Com mudas trazidas do Oriente, em 1706, o Jardim Botânico de Amsterdã passou a cultivar o café como importante atração. Já em 1714, como um presente, o burgomestre de Amsterdã enviou a Luís XIV, algumas mudas para serem incorporadas à coleção do Jardim de Plantas de Paris. Replantadas por Antonie Jussieu, acredita-se que delas provêem toda a descendência das lavouras da América Espanhola.


De algumas mudas obtidas do Jardim de Plantas de Paris em 1720, o Capitão Gabriel Mathieu de Clieu, na Martinica, iniciava os primeiros cultivos que se estenderam para as colônias espanholas e francesas.


As lavouras que deram origem às lavouras brasileiras foram trazidas da ilha de Java em 1714, pelos holandeses, para o atual Suriname. O café demorou um pouco a chegar ao Brasil, em razão de um velho costume que vinha desde a época dos turcos: não se vender café em coco para não ser plantado, o que levou, em 1727, o governador do Pará a incumbir o sargento-mor Francisco de Mello Palheta, a pretexto de resolver, oficialmente, questões de fronteiras com os franceses da Guiana Francesa, trazer em sua bagagem algumas sementes da preciosa planta.


Palheta cumpriu a risca sua missão: tornando-se amigo íntimo da esposa do governador da Guiana, Madame Dorveliers, contrabandeou 5 mudas e um punhado de sementes para o Brasil. Os primeiros plantios ocorreram no próprio Pará, mas em razão do clima, a lavoura não obteve êxito. O café então, desceu o litoral brasileiro, passando pelo Maranhão, Ceará, Pernambuco, Bahia, até chegar ao Rio de Janeiro, onde encontrou condições para sua expansão. Essa expansão, principalmente na região sudeste, deve-se ao Vice-Marquês do Lavradio, que convenceu muitos fazendeiros a investirem no produto. Assim, por volta de 1870, iniciou-se um dos principais ciclos econômicos da história do Brasil: o ciclo do Café.