História do Café

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"O BRASIL É O CAFÉ E O CAFÉ É O BRASIL"

A máxima da oligarquia cafeeira representa bem o que foi o poder econômico, político e social gerado pelo grão durante a República Velha


Ano de 1894. A transferência de poder dos militares para o civis assinala a passagem da República da Espada para a Oligárquica. A Política do Café-com-Leite (em nível federal) e a Política dos Governadores (em nível estadual), assim como o coronelismo, o voto de cabresto e as políticas de valorização do café, começam a ser estabelecidas e vão marcar, oficialmente, a partir de 1898, até o final dos anos 20, a dominação político-econômica das oligarquias cafeeiras sobre o País.

Durante seus quase trinta anos, a República Velha foi dirigida principalmente pelas oligarquias paulista e mineira ligadas à exportação do café, que constituía o setor mais dinâmico da economia brasileira. Os cafeicultores detinham o poder econômico e controlavam também a política nacional. Aliás, afirmam alguns historiadores que a política de alternância de poder entre os estados de São Paulo e Minas deveria sim ter sido chamada "Café-com-Café", pois Minas, já naquela época, era um grande produtor do grão.

A Política do Café-com-Leite foi uma conseqüência da Política dos Governadores, implantada por Campos Sales em 1898. Esta garantia que o governo federal e os governadores trocassem favores mutuamente. Governadores apoiavam a política do presidente e este favorecia os estados.

Campos Sales acreditava que a nação deveria ser sempre governada pelas elites tradicionais. Para isso, foi montado um grande esquema de coação e de fraude eleitorais, de maneira a garantir as famílias oligárquicas no poder.

Os governadores, para conseguirem os votos dos eleitores, ofereciam aos coronéis, controladores do poder local, retribuições como obras, regalias, cargos públicos, financiamentos, etc. Assim, as três esferas de poder federal, estadual e municipal garantiam sua prevalência no comando da política e o auxílio aos "amigos".


voto de cabresto e degola

Os membros das mesas de votação e de apuração eram indicados pelos coronéis e não havia título eleitoral. O voto era aberto e isto propiciava o controle da votação pelas autoridades locais e o suborno dos eleitores.

Quando mesmo com todo este esquema os candidatos de oposição conseguiam ser eleitos, eles não tinham a sua vitória homologada pela comissão de reconhecimento dos mandatos. Em outras palavras, a Comissão Verificadora de Poderes só dava o diploma de deputado aos candidatos da situação, negando-o aos candidatos da oposição. Este processo era a chamada "degola". A fraude eleitoral era, assim, oficializada e, através dela, o governo federal garantia a conivência do Congresso Nacional com a execução de sua política.



as políticas de valorização do café

A Política do Café-com-Leite permitiu à burguesia cafeeira controlar a política monetária e cambial e a negociação de empréstimos internacionais para a compra das sacas de café excedentes e, assim, assegurar o lucro dos cafeicultores.

A desvalorização da moeda era a maneira encontrada desde a época imperial para atender às exigências da burguesia cafeeira. A esta política de desvalorização do câmbio em favor da elite deu-se o nome de "socialização das perdas".
O mecanismo era acionado principalmente quando havia queda do preço do café nos mercados internacionais, o que, com a redução do índice de renda, acarretava prejuízos para os cafeicultores. Para eles, quanto mais desvalorizada fosse a moeda brasileira, maior seria a quantia adquirida na conversão do dinheiro estrangeiro recebido com a venda do café.

A política de "distribuição dos prejuízos" onerava a sociedade já que a desvalorização da moeda e a inflação provocavam o aumento do custo de vida e da tributação. Os brasileiros pagavam um preço alto por uma política que só beneficiava a uma minúscula parcela da população.


declínio e fim da política do café-com-leite

Durante a década de 20, diversos fatores somados, contribuíram para acelerar o declínio da República Velha. Entre estes fatores estavam os levantes tenentístas, as revoltas populares, o agrupamento das oligarquias dissidentes na Aliança Liberal e a grave crise econômica já existente no País - em decorrência da política de valorização artificial do café - que veio a ser agravada com a quebra da Bolsa de Nova York.

Nesse mesmo ano, houve a quebra do pacto entre paulistas e mineiros na sucessão presidencial, colocando fim à política do Café-com-Leite. Washington Luís, então presidente, deveria indicar um mineiro para tomar o poder, mas acabou indicando Júlio Prestes, também do estado de São Paulo.

Em oposição, foi formada a Aliança Liberal, que reunia as oligarquias de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba, lançando Getúlio Vargas como seu candidato.

Embora a vitória tenha sido do paulista Júlio Prestes, um golpe deu o poder a Getúlio Vargas. "Vitoriosa a revolução, abrese uma espécie de vazio de poder por força do colapso político da burguesia do café", afirma o historiador Boris Fausto, em seu livro A Revolução de 1930: historiografia e história (Editora Brasíliense).

Assim, com o término da República Velha, chega ao fim também o poder da burguesia cafeeira e tem início um novo capítulo da História brasileira, a Era Vargas.


Fonte: Espresso em revista - edição 7 - mar/2005 - p. 18-20
Por Paula Orlando - Ilustrações Rose Morais